Para criar um filho é necessário uma tribo inteira

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Hoje compartilho com vocês, um precioso texto de Elena de Regoyos, autora do blog http://mamaedoula.blogspot.com.br/ e do site http://mamaememima.com/.

Tem tudo a ver com a proposta desse blog e com a minha proposta de maternagem.

Tenho muito a agradecer às tribos das quais faço parte e que muito tem a acrescentar na minha vida e na de minha família.

 

São diferentes tribos, cada uma com sua forma de lidar com os filhos, todas especiais.

São mulheres, mães, pais e filhos que fazem parte e fazem a diferença. Sou grata. 

 

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O poder da tribo, muito além das mães

Muito vem sendo escrito já sobre a importância da “tribo” para o exercício da maternidade nesta sociedade individualista e apressada na qual vivemos, onde a família não mora mais ao nosso redor,  as amigas não tem tempo para “se dar”, pois devem cuidar também delas proprias no mesmo ritmo frenético, no mesmo isolamento social; e as nossas vizinhas não conformam mais aquela rede de apoio e amizade que maternava a mãe nos anos em que ela devia maternas os filhos.

Ao mesmo tempo, se sucederam algumas décadas de feminismo mal entendido (desde os anos ’60 e ’70), onde o que se preconizava não era a defesa da essência -e da livre escolha- das mulheres em um mundo dominado por homens, senão a necessidade das mulheres sermos o mais similares possível aos homens para poder aspirar a exercer o poder tal e como eles o exerciam até então (e ainda). Esta anulação da mulher e da maternagem tradicional é, ao meu ver, um dos fatos históricos recentes mais prejudiciais para a sociedade, para as mulheres em geral, para as mães (a maternagem) em particular e para as crianças principalmente. Para os adultos de amanhã.
Não amamentar “para não sermos escravas dos filhos dia e noite”; não carregar no colo “para eles não se acostumarem a nosso contato e assim não o demandarem e as mães podermos nos afastar deles sem choros, e portanto, com a conciencia tranquila”; levá-los à escolinha o antes possivel “para a gente recuperar a nossa mal entendida independência e assim voltar ao trabalho a produzir para benefício de outros, dos chefes, da empresa”; não ceder às birras ou demandas deles “para eles não se acostumarem a serem levados em consideração e, assim, aprenderem em que mundo -duro, depredador e impessoal- vivem, se resignarem a ele e deixarem de reclamar aquilo do que precisam”.

Somos produto do sistema, para sermos mais facilmente manipulaveis por ele

Mulheres, portanto, que não são escravas dos filhos, mas que são escravas do empresário que lhes emprega e paga, ou do que a sociedade lhe fez acreditar que ela “devia ser” e que, portanto, elas mesmas se cobram.  Se liberaram? Do que?

Crianças que aprendem que não são importantes, por não serem escutadas, atendidas como precisam e nem tidas em conta. Isso faz, sim, mães “livres” para trabalhar para o empresário de turno, e também crianças resignadas a não receber o que naturalmente estão feitas para receber, todas aquelas coisas que fizeram, durante milhões de anos de história da humanidade, sobreviver e evoluir a espécie. Serão futuros adultos que aprenderam, desde o berço, a não lutar por aquilo que queriam, porque raramente obtiveram resultados quando usaram as ferramentas ao seu alcançe: chorar, reclamar, se recusar a fazer alguma coisa…

Se choravam de noite pedindo companhia ou colo lhes deixaram claro que de nada adiantaria esse pedido, não seriam escutados. O resultado não é criança que aprende a dormir, senão criança que aprende a não pedir. Criança resignada, futuro adulto resignado e sem fê na força dele. Eles aprenderam a não pedir aquilo que a natureza deles lhes disse que precisavam: calor humano, companhia, colo, empatia… de dia e também de noite. Se se recusavam a beijar àquela vizinha, amiga da mãe ou tia distante, eram obrigadas a engolir a vergonha e a desconfiança perante o desconhecido, e a forçar um ato com o proprio corpo que, em teoria, deveria ser algo sincero, carinhoso e, principalmente, voluntário.

Se se negavam a compartilhar um brinquedo por estar brincando nessa hora com ele, eram obrigados a fazê-lo não se respeitando a si mesmos (o brinquedo é deles, e o estão usando nessa hora). Se não sentiam mais fome, eram forçados a comer “mais um pouco”, ou inclusive a terminar o prato de comida. Se caiam no chão e se machucavam o joelho eram treinados para não chorar, porque esse machucado “não é nada”. E se choravam ou “faziam manha” ao serem deixados na escolinha, vendo a mãe ir embora sem ele, eram instados a ignorar a tristeza que sentiam, a não mergulhar demais nas emoções, a não pedirem explicações nem expressarem o seu mal estar e revolta com aquilo, e levados rápida e carinhosamente para se divertir com os amiguinhos cantando musiquinhas alegres e muito fofas.

Treinados e (mal)educados assim, serão pessoas que conformarão sociedades à mercé dos poderes político e económico, sem autoestima, sem fé na força que tem, sem acreditar que devem e podem, sim, se incomodar com o que lhes incomoda e demandar as mudanças necessárias para obter aquilo do que precisam.

A contrarevolução do feminismo

No meio de tudo isso vem com força surgindo, estes últimos anos, movimentos de mulheres que defendem e curtem o “ser mulher” com tudo aquilo que não as faz melhores nem piores que os homens, senão únicas perante eles, poderosas na sua essência de mulher. Mulheres escolhendo livremente o seu caminho, mulheres se permitindo exercer de mulheres, gozando da gestação, parto e criação dos filhos, amamentando e não por isso anuladas pessoal nem profissionalmente. Muito pelo contrário, muitas delas descobrindo novas profissões compatíveis com a maternidade, ou differentes formas de exercer a que já exercíam, sem por isso renunciar aos prazeres da maternagem.

Estas mulheres geralmente fazem parte de redes de mais mulheres empoderadas ou “em proceso de” se empoderar, como elas mesmas. Umas escutam as outras, se ajudam entre si, trocam idéias, sentires e dicas. Se reunem, se ajudam e conversam sobre amamentação, sobre a criação dos filhos, sobre elas mesmas e sobre outros muitos temas alheios à maternagem também. Fazem pic-nics, se inscrevem ou promovem cursos de ioga, shantala, dança ou canto conjunto e até organizam grupos de trabalho para que, enquanto a maioria cuida das crianças na casa de alguma delas, outras aproveitam para trabalhar, escrever, estudar ou o que cada uma precise fazer, em um quarto contiguo, desde o qual poder voltar para atender o filho se ele precisa.

Mas, sobre todo, sobre todo e principalmente, o que fazem estes grupos é não criticar e nem julgar, provocando um aumento na autoestima destas mães, que tomam decisões conscientes e informadas desde o respeito do grupo.

Que viva a tribo!

A tribo nos faz ganhar não só amigas, senão às vezes comadres e até irmãs de coração. Pessoas que estão presentes, que nos escutam, ajudam e apoiam, e as quais escutamos, ajudamos e apoiamos na fase da vida provavelmente mais intensa, poderosa, mas também vulnerável das nossas vidas (aquela fase em que gestamos, parimos e criamos filhos pequenos). Os laços que se criam são quase de sangue, de sangue de parto, de sangue de mãe!

A tribo nos ajuda a nos empoderar, a tribo nos oferece e pede respeito, a tribo ajuda a nos informar com evidências científicas, a tribo substitui quase qualquer terapia psicológica, a tribo nos vê e ouve chorar e gargalhar com as histórias mais íntimas e sinceras jamais contadas. A tribo acolhe. A tribo liberta.

A tribo faz com que os nossos filhos ganhem, também, a propria tribo deles, que é a mesma. Se criam com crianças respeitadas, como eles são. Eles crescem vendo outras crianças “grandes” amamentadas, e não ganham caras de asombro quando se fala em “dormir na cama dos papais”, ou se aparecem de fralda com 3 anos. Eles raramente são obrigados a beijar ninguém e são consolados quando caem e se machucam (mesmo sem “machucado”).

A tribo oferece possibilidades de um monte de atividades conjuntas, pois aí onde as famílias se sentem acolhidas, é onde querem estar. Por tanto passeios, festinhas de aniversário, encontros no parque ou até em manifestações. Cursos, oficinas, workshops, atividades focadas ao bem-estar, ao lazer. Empreendimentos e parcerias novos, surgidos da tribo (cafés para famílias com crianças pequenas, lojas de brinquedos de madeira e não sexistas que fomentam valores positivos, aulas de dança com bebês e tantas outras!).

Mas, por cima de tudo, a tribo te faz livre. Livres as mães e pais de serem as mães e pais que querem e escolhem ser. Livres os filhos, consequencia da liberdade dos pais. Livres os adultos que virão a ser, consequencia das crianças que foram. Livre a sociedade, se lograrmos ser cada vez mais.

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E você? Faz parte de alguma “tribo” de mães? O que tem trazido ela para você? O que significa na sua vida?

Link para o arquivo original: http://mamaedoula.blogspot.com.br/2013/06/o-poder-da-tribo-muito-alem-das-maes.html
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2 responses »

  1. Muito bom esse texto!! É engraçado o que o sistema nos determina pra fazer ou não fazer, com o objetivo apenas de criar filhos que cresçam e corroborem esse sistema. Isso se chama adestramento.

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